
Estudo analisou 245 peixes de 14 espécies coletados em rios e reservatórios cearenses e concluiu que os níveis de mercúrio estão muito abaixo dos limites estabelecidos pela legislação
Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Biogeoquímica Costeira do Instituto de Ciências do Mar (Labomar/UFC) identificou níveis muito baixos de contaminação por mercúrio em peixes de rios, reservatórios e sistemas de aquicultura do Ceará. O estudo é resultado das pesquisas do INCT-TMCOcean – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano e foi publicado em junho de 2026 na revista Environmental Monitoring and Assessment.
Intitulado Mercury contamination and human exposure through inland fishery and aquaculture products in Northeastern Brazil, o trabalho foi realizado pelos pesquisadores Luiz Drude de Lacerda e Moisés Fernandes Bezerra. A pesquisa representa o primeiro levantamento sobre concentrações de mercúrio em produtos da pesca continental e da aquicultura no Nordeste brasileiro, além de avaliar o risco de exposição humana provocado pelo consumo desses peixes.
Pesquisa analisou 245 peixes
Os pesquisadores analisaram 245 indivíduos de 14 espécies de peixes, coletados entre 2013 e 2023 em rios e reservatórios do Ceará. Também foram analisadas concentrações de metilmercúrio em 43 indivíduos de oito espécies. As áreas pesquisadas estão inseridas na bacia do rio Jaguaribe e incluem ambientes como o açude Castanhão, o rio Jaguaribe e o rio Cocó.
Entre as espécies avaliadas estão tilápia, piranha, traíra, curimatã, piau, tucunaré e pescada. A escolha levou em consideração a importância comercial e alimentar desses peixes para as populações que vivem próximas aos rios e reservatórios cearenses.
Os resultados apontaram concentrações de mercúrio bem abaixo dos limites máximos estabelecidos pela legislação sanitária brasileira. Segundo o estudo, todos os indivíduos analisados apresentaram concentrações inferiores a 70 nanogramas de mercúrio por grama de tecido, enquanto os limites legais citados pelos pesquisadores são de 500 nanogramas por grama para peixes não carnívoros e 1.000 nanogramas por grama para peixes carnívoros.
Piranha apresentou maior concentração
Apesar dos níveis gerais reduzidos, os pesquisadores encontraram diferenças importantes entre espécies e ambientes. As maiores concentrações foram observadas em espécies carnívoras.
A piranha (Serrasalmus rhombeus) capturada no rio Jaguaribe apresentou concentração de até 68,5 nanogramas de mercúrio por grama. A média registrada para indivíduos dessa espécie no trecho fluvial foi de 40,9 nanogramas por grama, contra 10,9 nanogramas por grama nos exemplares coletados no açude Castanhão.
O estudo identificou ainda uma tendência de concentrações maiores de mercúrio em peixes provenientes de ambientes fluviais quando comparados a indivíduos da mesma espécie coletados em reservatórios. Os pesquisadores relacionam esse comportamento a fatores ambientais e ecológicos que podem favorecer a disponibilidade e a acumulação do mercúrio na cadeia alimentar.
Tilápia de cultivo apresenta os menores níveis
Um dos resultados de destaque envolve a tilápia (Oreochromis niloticus), principal espécie da aquicultura regional.
A pesquisa identificou que os peixes cultivados apresentam uma redução da concentração de mercúrio à medida que crescem. Os exemplares comercializados, geralmente maiores, apresentaram os menores níveis registrados. Os autores relacionam esse comportamento ao rápido crescimento dos peixes em sistemas de cultivo, que pode provocar um efeito de diluição do mercúrio na biomassa.
O estudo também destaca a importância econômica da atividade. Em 2024, a produção de tilápia no Nordeste foi estimada em 86 mil toneladas, equivalente a aproximadamente 17% da produção brasileira, segundo os dados utilizados pelos pesquisadores.
Consumo de pescado não apresentou risco significativo
Além de medir a presença do metal nos peixes, os pesquisadores calcularam diferentes cenários de exposição humana ao mercúrio, considerando desde o consumo médio regional até situações de consumo elevado.
O resultado foi positivo: não foi identificado risco significativo de exposição ao mercúrio para os consumidores nos cenários analisados. Os índices de risco ficaram abaixo do nível considerado indicativo de possíveis efeitos adversos. Mesmo em cenários de alto consumo, inclusive envolvendo crianças e espécies carnívoras, as estimativas apontaram risco considerado negligenciável para a exposição ao mercúrio.
Na conclusão, os autores afirmam que as concentrações encontradas ficaram muito abaixo dos limites estabelecidos pelas normas ambientais e sanitárias. O trabalho aponta ainda que, considerando exclusivamente a exposição ao mercúrio, o consumo das espécies analisadas foi considerado seguro, com destaque para a tilápia cultivada.
Monitoramento continua sendo necessário
Apesar do resultado favorável, a pesquisa reforça a importância do monitoramento permanente da qualidade dos peixes. O mercúrio é um contaminante persistente que pode ser incorporado aos organismos aquáticos e se concentrar ao longo da cadeia alimentar, principalmente em espécies predadoras.
Os próprios pesquisadores ressaltam que o crescimento da pesca continental e da aquicultura no Nordeste exige acompanhamento contínuo da qualidade dos produtos. A pesquisa também apresenta estratégias de aquicultura que podem contribuir para reduzir a bioacumulação do mercúrio.
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do INCT-TMCOcean, com apoio parcial do CNPq e da Funcap, além de financiamento da Capes para os custos de publicação.
A pesquisa mostra que o pescado continental consumido no Ceará apresenta, atualmente, baixos níveis de contaminação por mercúrio. Ao mesmo tempo, reforça que ciência, monitoramento ambiental e políticas públicas são fundamentais para garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade da pesca e da aquicultura no estado.